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Hoje peço licença para uma escrita mais poética, pois vamos falar de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. E será uma escrita ousada – na minha interpretação de ousadia, pois ouso relacionar essa narrativa com alguns conceitos da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e da Teoria das Molduras Relacionais (RFT).

Macabéa: pobreza que é também linguística e relacional

Em A hora da estrela, Clarice nos apresenta Macabéa, uma jovem nordestina que vive no Rio de Janeiro e na margem da própria existência. Sua pobreza não é apenas material, mas simbólica, linguística e relacional.

“Ela pertencia àquela qualidade de gente que não sabe que existe.” (Clarice Lispector)

Esse livro não fala apenas sobre a falta de dinheiro; é uma narrativa sobre a linguagem que falta. E é nesse ponto que começamos a costurar com as Terapias Comportamentais Contextuais.

Linguagem e formação da experiência: o que Macabéa nos ensina

Macabéa não sabe o que sente.

Não sabe nomear.

Não sabe pedir.

Não se entende e, por isso, também, não se defende. Sua vida é um eco de comandos externos. E quando olhamos com cuidado, vemos: a linguagem que ela não teve acesso moldou o mundo que ela não pôde habitar.

A linguagem humana não é apenas comunicação: é o que nos permite criar redes simbólicas complexas. Aprendemos, desde cedo, a relacionar palavras com objetos, com ações, com sentimentos e, a partir dessas conexões, formamos significados, valores, memórias e identidade. Ou seja, não é apenas saber o que uma palavra significa, mas como ela se conecta a outras.

Sem linguagem, não há ponte entre o que sentimos e o que podemos fazer com isso.

Macabéa não sabia que era infeliz, porque nunca aprendera a chamar a dor pelo nome. Sentia um incômodo vago, mas sem palavras para traduzi-lo, o sofrimento não ganhava existência. Precisava de um nome para o que sentia e enquanto esse nome não vinha, a dor também não podia ir embora.

Sua linguagem é restrita e rígida. Ela não consegue nomear sua própria dor ou compreender o comportamento dos outros. E como nos ensina a RFT, quanto mais complexa nossa rede relacional, mais complexa nossa experiência de mundo.

Se não tenho palavras para nomear o que sinto, como posso agir sobre isso? Como posso buscar ajuda?

A formação do self na perspectiva contextual

Macabéa carregava, sem saber, uma fome silenciosa por si mesma. Queria descobrir quem era, que forma tinha sua existência. Mas não ousava perguntar, como se perguntar fosse atrever-se a existir.

A identidade de Macabéa parece ter sido construída pela ausência: de afeto, de escuta, de espelhos humanos que a ajudassem a se ver.

Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) falamos de três dimensões do self:

  • Self como conteúdo: aquilo que a pessoa acredita ser (“sou feia”, “sou burra”).
  • Self como processo: a capacidade de observar pensamentos e sentimentos no aqui-agora.
  • Self como contexto: o espaço onde todas as experiências acontecem, que permanece estável apesar das mudanças de conteúdo.

Macabéa está presa ao conteúdo e mesmo esse, pouco articulado, pouco consciente. Falta linguagem para observar seus pensamentos e sentimentos com perspectiva. Seu self é determinado por relações simbólicas empobrecidas e socialmente desvalorizadas.

A pobreza relacional e suas implicações

As coisas acontecem com a personagem, mas ela não sabe nomeá-las. Sem palavras, tudo lhe escapa como água por entre os dedos. Não há como dizer “isso é meu”, “isso me toca”, “isso sou eu”.

A linguagem pode ser tanto uma ponte quanto uma prisão. A restrição de linguagem impede Macabéa de agir em direção a valores, porque talvez ela nem saiba o que valorizar. Ela não aprendeu a nomear, a questionar, a desejar.

O mundo lhe ficava vago, e ela não sabia com que palavras tomar posse dele.” — Clarice Lispector

Sua passividade não é desinteresse: é resultado da ausência de repertório para se posicionar.

Clarice nos mostra os efeitos de uma vida com repertório verbal restrito, além de nos convidar a testemunhar o efeito brutal de um mundo que exclui e silencia. E aqui a RFT nos dá um mapa: poucas relações linguísticas = poucas possibilidades de ação.

Se não aprendi que “não gostar” pode ser dito, que “desejar” é legítimo, que “sofrer” pode ser nomeado, minha capacidade de escolha e de mudança se estreita. O mundo, então, vira um lugar duro, onde as experiências internas não fazem sentido — e as externas são apenas suportadas.

Como não sabia o que sentia, não sofria — sofria de não saber.” — Clarice Lispector

A dor de Macabéa não era de chorar; era de não saber por que chorar. Sua angústia era sem nome. Como não sabia o que sentia, não podia sofrer da dor que outros reconhecem, mas sofria, silenciosamente.

E se Macabéa tivesse tido palavras?

Talvez tivesse dito “não”.
Talvez tivesse desejado mais do que um namorado que a despreza.
Talvez tivesse se indignado, se defendido, se reinventado.

Mas a linguagem que lhe faltou, faltou também no mundo que a moldou.
Clarice não nos entrega respostas fáceis, mas nos oferece uma imagem dolorosa do que é viver sem palavras suficientes para existir de verdade.

Psicoterapia como espaço de reconstrução

Quando faltam palavras, faltam mundos.
Quando a linguagem é pobre, a experiência empobrece.

Talvez um dos papeis mais belos da psicoterapia seja esse: ajudar a pessoa a contar sua história com mais palavras, mais nuances, mais liberdade.

Quando alguém chega até mim sem saber explicar o que sente, ou repetindo apenas o que lhe disseram que era, muitas vezes vemos uma Macabéa contemporânea, formada pelo olhar do outro, aprisionada na linguagem que aprendeu ou na que nunca lhe ensinaram.

Nosso papel, então, é oferecer palavras.
É ajudar a expandir redes relacionais.
É devolver à pessoa a possibilidade de se dizer e, assim, de viver mais amplamente.

Perguntamos:
“O que isso significa para você?”
“Como isso se conecta com sua história?”
“Se isso tivesse um nome, qual seria?”

Porque nomear é criar.
E criar é habitar o mundo de forma mais consciente.

Thaís S. Mascotti

Psicóloga clínica (CRP 06/137999), graduada em psicologia e mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela UNESP/Bauru. Capacitada em Terapia Online. Possui Formação em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Visa proporcionar um espaço seguro de diálogo e condições para o desenvolvimento pessoal e profissional de jovens e adultos.

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